Palestina


Palestina! 

Palestina!

Palestina! 

Palestina! 

Palestina!

Palestina! 

Palestina!

Palestina!

Palestina!

Palestina!







Frigorífico (1)

Quantos séculos 

para construir um frigorífico?

Quantos séculos de esforço humano

e de ideias brilhantes?

Quanta democracia?

Quanta tragédia e quanta fome?

Quanto esforço, quantos gestos,

quantos milhões e milhões de gestos

para chegar a um frigorífico?

Falamos de um frigorífico

mas podia ser a penicilina,

o cloro, a roda, o fogo,

a anestesia e a vacina,

um relógio, o piano, o computador

ou um trompete.

Edison. Einstein. Curie.

Alguém sabe quem foram

William Cullen e Oliver Evans,

Jacob Perkins e James Harrison,

Karl von Linde e Fred Wolf Júnior?

Quanto esforço humano

e quanta alegria para estar de pé?

Quanto cuidado

e quanta vontade de viver?

(...)

Atchim. 

As belas verdades que por vezes saem da boca dos amigos

"Para nós, simples terrenos que não temos conexões com o outro mundo, é difícil especular sobre o futuro."



poema diminutivo: o grito

 


Já foi tempo em que o grito

era arma de guerra - e gelava de medo

o corpo do combate inimigo.

O mundo dos homens, das mulheres, 

das crianças e dos animais aflitos.

O mundo dos desamparados da sorte.

O mundo da dor infinita sem consolo.

O mundo da ambição e da indiferença.

O mundo para quem a trégua é só cansaço,

sono, álcool, morte.

Onde a paz foi trocada por coisas,

a alegria por enfeites, 

os valores por notas de dinheiro,

a dignidade por prestígio.

Para este mundo, onde está o grito?

Onde está a arma de guerra

com que rasgo a minha carne

como se fosse a roupa que não quero envergar?

O grito que me salve da vergonha

de compactuar nos crimes com a impotência,

de ser cúmplice por inacção.

A arma, onde está, 

para fazer frente à ignomínia?

Cada um quer simplesmente

viver uma boa vida, uma vida boa,

cada um à sua maneira.

Aqui e ali, caem mísseis sobre casas algures.

Aqui e ali, a miséria grassa ao ponto da fome.

Aqui e ali, há quem esteja no lugar errado.

Aqui e ali, há quem trabalhe todos os dias

sem ganhar tecto nem pão.

E eu, que também gostaria de viver uma boa vida,

depois de ter pensado muito sobre isso,

e pensado até que a boa vida

só pode ser vivida para deus

e sem qualquer espécie de exigência,

eu por mim gostaria apenas

de fazer greve desta existência,

uma greve conjunta, revolucionária,

uma greve de milhões que fizesse tremer tudo

de uma ponta à outra dos oceanos

e que com ela mudássemos o mundo,

mas tenho vários problemas:

quanto às ideias teóricas

que tenho sobre o valor do trabalho 

a tirania selvática dos mercados

a possível transmigração das almas

e até deus

elas soam tão estranhas que parecem delírios,

ninguém as ouve,

e quanto às ideias práticas,

parece-me que não terei nenhuma.





Num outro dia

 


Apetece-te morrer, rapariga,

mas vais varrer o chão.

Arrumas a roupa 

que está nesse canto

e sorris a uma criança 

porque às crianças

não se rouba o riso.

Apetece-te morrer, rapariga,

e ninguém sabe porquê,

mas tu sabes

(quem te dera não saber).

Apetece-te morrer,

mas escolhes os legumes para a sopa,

com cuidado,

e fazes uma sopa

realmente deliciosa.

Para ti, não tem sabor.

Onde está a velha alegria

de escolher legumes para a sopa?

Apetece-te morrer, rapariga,

mas caminhas à beira-mar

como se tudo te fosse estrangeiro

e tudo mudo e surdo

como se o canto das cores

para sempre tivesse parado

numa batida do teu coração.

Não podes abrir um livro.

Cada palavra 

é uma guilhotina da alma.

Não podes ir buscar 

as pequenas mortes,

essas mortes antigas 

com que em tempos

foste buscar forças para viver.

Já as usaste todas.

Varrer o chão não está mau.

Tudo o que tenha a nulidade

do que é mecânico

não parece mau.

Mas sabes que partir

é a coisa mais suave.

Sabes que és um raio de luz.

Já experimentaste.

Estiveste lá e regressaste

e então porque não ir e não voltar?

Apetece-te morrer, rapariga,

mas vais estender a roupa.

Arranjas o teu cabelo

e pões pérolas nas orelhas.

Que lindas pérolas.

Onde estão as tuas lágrimas?

Esperas que num outro dia

a incandescência das árvores no esplendor

possa vir de novo 

pegar fogo à tua alma

e, quem sabe, reduzi-la a cinzas.



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Expliquem-me só



Afinal, entre o esplendor
e a crueldade, onde ficamos?
Onde fica Jesus 
e a natureza 
com as cores sublimes,
as cores sublimes e esplendorosas
do mar, das searas douradas e das nuvens
que correm por todo o céu?
A natureza 
com o riso cómico de Deus,
Deus que ri no cavalo marinho 
e no olho torto
do camaleão - nada mais certo.
Deus que ri por todo o lado,
por todo o lado
ai Deus que não conseguimos imaginar
mas de quem compomos um riso de ternura
no koala e outro de escárnio
na hiena e outro de elegância e spleen -
no flamingo.
Expliquem-me só isto, 
talvez uma pequena coisa,
uma coisa de nada, uma coisa que talvez
seja uma mera insignificância
e que talvez nem valha 
um caracol 
se é que o valor
se mede em seres animados.
Esta bela natureza com os animais 
que se comem uns aos outros
rasgando a carne.
A natureza com milhões de vírus e bactérias
e solenes doenças e mortes trucidantes.
A natureza com a decomposição
dos corpos que até podem
resultar em rosas de vez em quando
ou por acaso. A natureza
com a beleza estonteante
que nos deixa bêbados de esplendor.
A natureza com a luz de Turner
e os penhascos 
de Caspar David Friedrich.
A natureza divina 
e muda de Tarkovski.
A natureza 
com o sofrimento infinito,
o sofrimento infinito, infinito
dos loucos, dos miseráveis e das mães
que amam perdidamente os filhos.
Sofrimento de quem morre 
com falta de ar ou de justiça ou de amor
e dos outros que se sentem 
tão infinitamente sós
como o mais solitário 
de todos os elementos cósmicos -
os abandonados de Deus.
A natureza tão estranha
onde aterramos sem aviso,
como desconhecidos
como estrangeiros
como desterrados e condenados
 e onde temos tanta dificuldade
em perceber qualquer coisa.
Não percebemos 
nada de nada.
Deambulamos 
entre o fascínio
e o pavor - na natureza.
Nós, quase à beira da loucura
 à espera da hora da nossa morte -
com uma certa elegância
ou sem elegância nenhuma,
apenas com as lágrimas
que já secaram na alma
 antes de chegarem ao rosto.
Estou tão longe, tão longe...
cada vez mais: 
sofro de misantropia.
Dói-me a garganta, muito.
E o peito, já não o suporto.
É possível que doa assim tanto 
a angústia?
A hora - onde está?
A hora não chega.
Estou cansado.
O pó da morte até me parece 
uma coisa agradável.



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último poema




É um facto. 
Há quem gaste milhões
para comprar dias de sol
e viajar, em belas cadeiras de avião,
para Lanzarote. 
Ai sol... ai sol... 
ai mar de verde azul.
E nós que tanto amámos o sol,
nós a quem um dia de sol 
talvez salvasse de muito, 
como a Pessoa, nós agora
só queremos ir para a Suécia 
no solstício de Inverno,
quando os dias estão mais negros
e nem sequer existem.
Ai - escuridão!...
Ai - noite infinita!...
Ai cinza de veludo suave 
com que choram as nuvens.
Não às Caraíbas. Não
às praias de Moçambique.
Não ao Dubai.
Não à Tailândia.
Não à luz incandescente 
das primaveras faiscantes
que agora de repente nos oprimem -
como antes nos empolgavam.
Não às Canárias.
Não queremos o sol da Costa Rica, 
nem de Cabo Verde, 
nem de Cuba, nem de Barbados, 
nem da Califórnia.
Como nos consolam 
as tardes sombrias.
Como é alegre e delicado
o subtil e raro nevoeiro.
Como é suave a lua
e toda a luz de prata fina
com que se timbra a noite.
 Como nos embala a buzina
intermitente que orienta os navios
do mar invisível 
que agora as nuvens cobrem.
Que o céu nos venha rasar os pés -
que bela maravilha!...
Não à brancura que agride
uma pobre cinza interior
e que agora nos faz amar,
acima de tudo,
o nevoeiro londrino
e os dias escuros e chuvosos.
Não passes, suave Inverno!...
Fica para sempre!...
Deixa gelar por todo o lado
os botões das flores!...
Deixa as sementes abrigadas
a dormir debaixo da terra!...
Ah!... 
Não venhas, Primavera!...
Não venhas, esfuziante Verão!...
Pareces um palhaço exagerado.
Ao menos que a natureza 
esteja de acordo connosco
e, se não conseguimos mais chorar,
então que o céu chore por nós.


Igor Andropov




Igor Andropov era um daqueles rapazes, por assim dizer, ou demasiado ingénuo, ou demasiado bom.

Tinha por tarefa nesses tempos carregar laranjas de um lado para o outro, nos caminhos enlameados da aldeia, o poético Igor Andropov que era como um elemento solto e desencaixado no puzzle onde lhe acontecera nascer.

Um dia, ia Igor Antropov com os cestos de laranjas nos ombros, quando alguém o fez tropeçar.

Espalharam-se pela lama todas aquelas laranjas brilhantes.

- Olha o que fizeste!... - exclamou Igor Andropov.

- Ora!... Diz-me lá o que é que fiz?... - ripostou o outro. 

- Entornaste as minhas laranjas...

- Ai sim?... Como?...

- Colocaste aqui um pé. Pregaste uma rasteira.

- O quê?!... Não me lembro de nada!...

- Eles bem viram. Esses com quem estás.

- Não vimos nada. 

E o mesmo se repetiu muitas vezes, nos dias seguintes, e nos anos seguintes.

As laranjas rolavam pela lama.

Igor Andropov não podia fazer grande coisa. Era apenas um contra muitos.

E ninguém se lembrava de nada.

- Dizes que ontem te aconteceu a mesma coisa?... Mas quem se lembra?...

Igor Andropov não estava certo de que houvesse verdadeiro dolo nessa amnésia de certo modo conveniente.

Um dia, Igor Andropov apareceu enforcado.

Não foi notícia, pois podia ser que a sua história inspirasse outros.

Disse-se apenas que Igor Andropov tinha morrido.

Na Alemanha, na Itália e na Dinamarca, no século XVIII, o Werther de Goethe foi proibido.

Aconteceu que muitos jovens imitaram o herói do romance, que se matou por amor.

No século I, Plutarco contou o caso das raparigas de Mileto, dizendo que todas tinham sido possuídas por um desejo de morrer e por uma vontade furiosa de se enforcar.

O que as terá inspirado, ou motivado?

Em Portugal, todos os dias o rio Tejo é dragado porque alguém se lança da Ponte 25 de Abril, mas é melhor que não se saiba.

Ainda bem que a falta de memória não é apenas uma debilidade natural do intelecto.

Para alguns é um benefício da natureza que em muito contribui para a paz das suas almas.


As primeiras chuvas



O coração necessário para salvar Salvador Sobral pode chegar a qualquer momento.
«Com as primeiras chuvas, surgem os acidentes de viação
e aumenta a oferta de corações saudáveis.»
- avança o presidente da Associação Portuguesa de Cardiologia. 

in «TV Guia»,
nº 2022, 20.10.2017
 
 
 

Excesso de Mortos

 
 

 
 
MEDICINA LEGAL COM EXCESSO DE MORTOS
 
QUE NINGUÉM RECLAMA
 
 
 
Instituto desmente, no entanto, que haja cadáveres nos corredores.
 
 
 
 
 
 
 
(Notícia do Jornal de Notícias em 19.5.2017)


Nem o futuro é previsível, nem o presente é garantido




 
Meu caro Extraterrestre, eis um aspecto curioso da nossa vida quotidiana.
 
Não é frequente ocorrer-nos que encontrar iogurtes no corredor dos produtos refrigerados, no supermercado, seja uma coisa que pode não ser possível amanhã.
 
Nos nossos supermercados, é possível encontrar uma gama de iogurtes absolutamente espantosa. Magros, gordos, gregos, naturais, biológicos, medicinais, com frutas, com cereais, com chocolate, com smarties, com doce, de leite, de soja, de amêndoa...
 
Parece que a abundância de todo o globo se encontra ao alcance de um carrinho de mão.
 
Bacalhau da noruega, camarões tigre de Angola, manga do Brasil, ananás dos Açores, líchias da China, mostarda de Inglaterra, Ketchup da Alemanha, arroz dos Himalaias...
 
A lista é infindável.
 
Você não pode imaginar quantas marcas de papel higiénico existem à nossa disposição, num supermercado.
 
Folha dupla, folha tripla, folha simples, acolchoado, macio, perfumado, colorido, florido, reciclado...
 
Entrar num grande supermercado é uma experiência estranha, difícil, fascinante e avassaladora. Pode dar-nos uma sensação de irrealidade, de claustrofobia, de sufoco.
 
As maçãs são enceradas, para terem mais brilho.
 
Está tudo lavado, brilhante, embalado, colorido.
 
Por todo o lado há etiquetas, rótulos, preços, tabuletas, cores faiscantes, promoções, lâmpadas e instruções.
 
Não é frequente ocorrer-nos que os supermercados não estejam lá, iguais a si mesmos, no dia seguinte, como não é frequente ocorrer-nos que não haja água quente nas torneiras da nossa casa, luz nas lâmpadas e electricidade nas máquinas, como internet no computador, e telefones nas malas.
 
Os nossos carros andam - e há estradas por todo o lado.
 
Temos roupa lavada e passada a ferro, todos os dias.

No entanto, como você naturalmente deve saber, meu caro Extraterrestre, na segunda metade do século XIX, Karl Marx observou, de uma forma bastante admirável, n' O Capital, que «a tendência imanente da produção capitalista consiste em apropriar-se do trabalho durante as vinte e quatro horas do dia». (1)
 
Talvez não nos ocorra que os resultados notáveis desta tendência de crescimento e de apropriação total se encontram, tanto nas nossas casas, como nos modernos supermercados.
 
Que há de mais maravilhoso e confortável que uma casa moderna, com as suas máquinas, as suas luzes, fontes de calor e de água e todas as comodidades que couberam algum dia na imaginação dos homens?

Quereremos algum dia voltar a viver de livre vontade numa cabana, em condições realmente idênticas às da Idade Média, sem água, sem luz e sem telefone?
 
No século XIX e ainda hoje, embora não em todo o globo, mas apenas naqueles locais em que a miséria é tão grande que os homens se sujeitam a qualquer trabalho a troco de um pouco de pão (locais que não são assim tão pequenos, nem tão pouco povoados, nem tão rarefeitos como o brilho de uma estrela distante), a apropriação do dia de trabalho pelas grandes empresas e multinacionais, que hoje «deslocalizam» as suas fábricas (ou melhor, transferem-se para esses paraísos do trabalho barato), com vista ao aumento da mais-valia e do lucro, continua a fazer singrar e a expandir, de um modo maravilhoso e verdadeiramente digno de admiração, este nosso mundo da super-abundância.
 
Claro que nós temos muita dificuldade em pensar nos pilares que sustentam a nossa abundância, meu querido Extraterrestre, pois, como decerto se vai apercebendo, o pensamento humano sofre de limitações extremas, que são comuns a todos nós, e dificilmente se separa do estômago, que é um dos órgãos mais exigentes e tirânicos do nosso corpo.

Será que você também tem um estômago, ou será que em si as forças criativas do universo se realizaram de tal modo que não o obrigam a delapidar, pelo desejo, pela necessidade, pela cobiça, ou pela fome, as outras obras de Deus?

Parece que é uma proeza ser capaz de pensar com o estômago realmente vazio e, uma vez de barriga cheia, também se torna difícil reflectir em certos assuntos.
 
Marx cita Naylor e Vickers, os fabricantes de aço da empresa que foi fundada em 1828 e que mais tarde veio a produzir armamento, equipamento militar aeronáutico e automóveis, tendo comprado em 1980 o fabricante de motores da Rolls Royce que, por sua vez, em 1998 (há menos de vinte anos), foi vendido à Volkswagen. Nesses tempos remotos e hoje quase esquecidos, diziam os dois distintos empresários:
 
«Os rapazes nada sofrem com o calor. A temperatura é de trinta a trinta e dois graus centígrados. Na forja e no laminador os braços trabalham dia e noite, revezando-se, mas toda a obra faz-se de dia, das seis da manhã às seis da tarde. Alguns operários trabalham continuamente de noite sem se revezarem, isto é, nunca de dia. Não nos parece que o trabalho, quer se execute de dia, quer de noite, faça a mínima diferença à saúde e as pessoas dormem melhor quando gozam do mesmo período de repouso do que quando este período varia. Cerca de vinte crianças trabalham de noite com os homens. Não poderíamos sair-nos bem sem o trabalho nocturno de rapazes abaixo dos dezoito anos. Haveria um grande aumento nos gastos de produção. É difícil ter contramestres hábeis e «braços» inteligentes; mas rapazes arranjam-se tantos quantos se queiram.» (1)

Claro que Karl Marx, no século XIX, não imagina ainda o destino particular que teria a empresa Naylor and Vickers, no século XXI, quase duzentos anos depois da sua fundação.

Mas seria a coisa mais interessante e produtiva, para cada empresa citada n' O Capital, investigar o seu destino posterior, a linhagem que produziu e, a partir dessa descrição, produzir uma imagem da nossa história global.

Citando a Comissão Parlamentar sobre a Falsificação das Subsistências (1855-1856) e o relatório do Dr. Hassall, intitulado «Adulterações Descobertas», Marx comenta:

«O inglês, sempre a cavalo na sua Bíblia, sabia muito bem que o homem é destinado a comer o pão com o suor do seu rosto, desde que a graça divina não tenha feito dele um capitalista, um grande proprietário, ou um tachista; mas ignorava que estivesse condenado a comer no pão "uma certa quantidade de suor humano diluído em teias de aranha, cadáveres de baratas, fermento apodrecido, resíduos de úlceras purulentas, sem falar do alúmen, da areia e de outros ingredientes minerais de idêntico sabor."» (2)

E continua:

«Os padeiros full priced (que vendem o pão ao preço normal) trabalham das onze da noite às oito da manhã do dia imediato, quase sem interrupção; empregam-se depois a transportar o pão até às quatro, cinco, seis e sete horas e, algumas vezes, a fazer biscoitos na padaria. Terminada a sua tarefa, permitem-lhes dormir quase seis horas; muitas vezes dormem apenas cinco ou quatro horas. Às sextas-feiras, o trabalho começa sempre mais cedo, em geral às dez da noite, e continua sem parar até às oito do dia seguinte. Nas padarias de primeira classe, em que o pão se vende ao preço normal, mesmo nos Domingos, há quatro ou cinco horas de trabalho preparatório para o dia seguinte. Os padeiros que vendem o pão abaixo do preço normal - e estes formam, como já observámos, mais de três quartos dos padeiros de Londres - são sujeitos a mais longas horas de trabalho; mas o seu trabalho executa-se quase por completo na padaria, porque os patrões, exceptuando algumas entregas aos comerciantes retalhistas, só vendem nas suas próprias lojas. Às sextas-feiras, o trabalho começa nestas padarias às dez da noite e prolonga-se até à meia-noite de Domingo ou ainda mais. Quanto aos fabricantes de pão que vendem abaixo do preço normal, reconhecem que é o trabalho "não pago" dos operários (the unpaid labour of the men) que lhes permite fazer concorrência. E o padeiro de "preço normal" acusa os concorrentes de "preço abaixo do normal", perante a Comissão de Investigação, como se fossem ladrões de trabalho alheio e falsificadores: - "Só têm êxito porque enganam o público e obtêm dos seus operários o trabalho de dezoito horas pelo preço de doze."» (3)
 
Meu querido Extraterrestre, meu compreensivo e paciente amigo, a quem apesar de tudo me posso dirigir e a quem posso escrever, mesmo depois das nossas elegantes e cordiais cartas de zanga e ruptura, é claro que tudo isto se passou no século XIX, não no século XXI.

Agora, precisamente neste luminoso segundo, meu inestimável amigo, meu inteligente e delicado Extraterrestre, porventura e desejavelmente desprovido de estômago, agora estamos no inaudito, glorioso, complexo e progressista século XXI.
 
Ora, neste nosso presente amiúde conturbado, quando se vem a saber, preto no branco, por exemplo, que a Apple, perto de Xangai, na Pegatron, produz os I-Phone 6 em condições de trabalho que em tudo se assemelham às dos padeiros ingleses do século XIX a preço normal (4), ou que, na Turquia, a indústria têxtil emprega crianças órfãs refugiadas em condições que pouco diferem das dos rapazitos que trabalhavam para Naylor e Vickers em 1830 (5), tudo isto, de certa forma, é totalmente diferente, quiçá por causa da redacção da Carta dos Direitos Humanos, quiçá por causa da invenção da bomba nuclear, do relógio digital, do computador pessoal, do ecrã táctil ou do sufrágio universal.

Do mesmo modo que, aqui e ali, um sobrevivente de guerra, por não ter morrido, se pode sentir exaurido e estrangulado pela culpa, diante da morte dos seus familiares e amigos, assim também alguns dos que escapam à miséria, os privilegiados da abundância, em vez de felizes, podem sentir-se irremediavelmente culpados e responsáveis diante da miséria dos seus semelhantes e do lixo que diariamente produzem, em sacos limpos e que se vendem em rolos, para colocar nos contentores.

«Trabalhar até à morte, eis a ordem do dia, não só nas oficinas das modistas mas em toda e qualquer oficina. Vamos ver por exemplo um ferreiro. A dar crédito aos poetas, não há homens mais robustos, mais transbordantes de vida e de alegria do que os ferreiros. Levantam-se de manhã cedo, produzem faíscas na forja antes do nascer do sol. Comem, bebem e dormem como ninguém. Sob o ponto de vista físico, é verdade que, se o trabalho for moderado, encontramo-nos perante uma das melhores condições humanas. Mas sigamos um ferreiro à cidade e examinemos o peso de trabalho posto sobre este homem forte e que nível ocupa na lista de mortalidade do nosso país. Em Marylebone (um dos maiores bairros de Londres) os ferreiros morrem na proporção de trinta e um em mil, todos os anos, número que excede em onze a média da mortalidade dos adultos em Inglaterra. Esta ocupação, uma arte quase instintiva da humanidade, torna-se, pelo simples excesso de trabalho, destruidora do homem. Um ferreiro pode dar em cada dia muitas marteladas, muitos passos, muitas inspirações, executar muito trabalho, e viver apenas cinquenta anos. Se o forçarem a dar tantas marteladas a mais, a dar muitos mais passos por dia, a respirar mais tantas vezes acima da média, somando todos estes excessos ao dispêndio normal de energia, sabem qual será o resultado? Morrerá aos trinta e sete em vez de morrer aos cinquenta.» (6)

Meu querido Extraterrestre, você sabia que as raparigas também jogavam à bola em bikini, na Sicília, no século III depois de Cristo, isto é, há mil e setecentos anos atrás?

Depois, no século XX, muito depois de as mulheres terem sido proibidas de mostrar os tornozelos ou de tomarem banho sem uma camisa bem comprida por cima, até aos pés, porque olharem para o seu próprio corpo poderia resultar em pecado mortal, inventou-se o bikini.





 
 





(1) MARX, Karl, «Capítulo X - O dia de trabalho: IV - Trabalho de dia e de noite. Sistema de turnos» in O Capital, Vol. I (Lisboa: Delfos, 1973, versão integral traduzida por António Dias Gomes), p. 163.

(2) Id., «Capítulo X - III - O dia de trabalho nos ramos industriais ingleses em que a exploração não é limitada por lei», p. 157.

(3) Id., p. 158.

(4) http://www.bbc.com/news/business-30532463

(5) http://www.bbc.com/news/business-30532463

(6) Id., «Capítulo X - III - O dia de trabalho nos ramos industriais ingleses em que a exploração não é limitada por lei», p. 161.

 

Auchwitz








Para onde iam os cabelos 

das mulheres incineradas
 
nos crematórios de Auchwitz?



 

Parece que serviam, sobretudo,
para o isolamento acústico
dos submarinos.








 

Alfentanil



Alfentanil.
Bruprenorfina.
Fentanil.
Codeína.
Fecha os olhos,
amigo - sorri.
Heroína. Metadona.
Morfina. Nalbufina.
Trabalhadores de todo o mundo!...
Ouvi!...
Não deixem de colher as papoilas!...
Eia!... Juntem as sementes -
que a dor agora vai voar!...
Ah!… Bela dor!... 
Adeus.
Oxicodona.
Petidina.
Ra-mi-fen-ta-nil.
Sufentanil.
Esqueçam a morte.
Esqueçam, esqueçam.
Di-hi-dro-co-de-í-na.
Tramadol.
Esqueçam o crime. A culpa.
O desejo. O pequeno-almoço.
As vítimas do holocausto. 
O absurdo.
Soltem de vez as amarras!...
Apaguem de um só golpe
todas as lâmpadas!...
Com a máxima leveza
e a insuperável elegância
de uma espadeirada bem cruel
- e das mais fortes -
abulam os raciocínios, a lógica,
a necessidade e as consequências.
Ah!... Que delícia!...
Quando nasci deve ter sido assim.
Assim fluído.  Assim suspenso.
Assim livre. Assim veloz.
Só um raio de luz de chama infinita -
estrela cósmica cadente
de cauda divina indefinida
e quente quente quente... Ah!...
Querem mais do que isto?...
Escrevam - Um raio de luz
talvez seja um animal. 
Juntem sementes em sacos.
Juntem-nas em cilos que cheguem aos céus
com uma escada em caracol à volta
e que nós subamos por ela,
aos tombos - com flores na testa,
pés descalços
e pássaros nas palmas das mãos
e perguntemos a Deus,
como Deus perguntou a Caim: 
O que é isto?...
O que fizeste?...
Mas primeiro dizemos boa tarde.
Não somos indelicados.
Ó leões nascidos na jaula!...
Sermos... e não sermos mais…
Só porque prefere, 
em vez dos frutos da terra, 
o sangue dos animais,
Deus é agora o novo Caim.
Trepem!… Trepem!…
Lá no topo da bela escada
que sobe aos céus em caracol
nós os privilegiados
podemos sorrir embevecidos
para Deus. Mas ai
que nos voam das mãos
os pássaros, as borboletas,
os cigarros e os papillons 
que trazíamos ao pescoço
e já agora nos pulsos
(só para enfeitar).
Dançamos uma valsa?...
Não temos nada a reclamar.
Deus é belo - e a vida também.
Que é isto que vejo?
Um monóculo?!
Ah... é meu... 
Desculpe. Deixei cair.
Quem disse que Deus
alguma vez usou monóculo?
Assim é que era!...
Que luzinhas tão simpáticas.
Já não se erguem muralhas
por dentro da carne.
Já não há nós nem amarras
nem entre os ossos -
existem tendões.
Ó corpo sem cordas nem traves!...
Nem figura. Nem sepultura.
Nem peso nem divisões
entre a terra e os pés
ou entre as pernas
e a cintura de um chapéu
que esteja enfeitado
com uma pena de falcão,
uma fita - e uma sineta.
Por dentro da carne - nenhum órgão.
Ó alma sem andaimes nenhuns!...
Fzzzz!....
Nem respirar. Nem caminhar.
Nem rumo. Nem coração.
É só onda
- a curva suspensa -
sem princípio nem fim.
Sombra, rasto
- poeira ou espuma -
que é como a cauda
de uma estrela infinita.
 Arde, arde, arde!...
Meu Deus... - como ardes!...
Já não somos
os escravos cardíacos das estrelas.
Baloiçamos do nosso coração
como um leve corpo descendente
que penda de um pára-quedas ao sol.
Não olhamos para baixo.
Não ficamos com vertigens.
Mas só com receita médica.
Nos países civilizados é assim.
Os opiáceos não circulam livremente,
ainda que os ingleses, esses rafeiros,
os trocassem no século XIX
por porcelanas, sedas e chá,
e por esse comércio se bateram
contra os chineses, ganhando
a ilha de Hong-Kong 
por cento e cinquenta e cinco anos.
Ai!... Feliz de ti
se te arrancam um dente
e colocam um implante
- estás como quem levou um soco na cara -
e como não leste a bula, andas tão contente,
nem sabes porquê, mas sentes 
que é melhor tomar mais um
daqueles comprimidos.
Sempre há o picante, o sono,
o álcool, o clorofórmio,
o sexo, as fantasias,
e talvez o adultério.
Montem a galope nas nuvens,
vá, não tenham vergonha!... 
Cerimónias para quê?...
Em cima das nuvens pode-se fazer
nudismo e pairar à vontade,
tal como os anjos no tecto
da Capela Sistina em Roma.
Só há uma coisa
que é mesmo importante
que é não esquecer a bolsinha
com o leite de côco,
porque aos que trepam ligeiros
pelas costas dos deuses
sempre é útil o gin, 
o vodka, o absinto,
as benzodiazepinas, 
o propofol - e o bronzeador.
Toca a trabalhar, portanto.
Já que a realidade não transige,
desligam-se uns neurotransmissores
do flébil sistema neuronal.
Sempre soubemos fazer isso.
Ah!.. mas quem diria -
que afinal haveria
receptores opióides
nos sistemas neuronais
do intestino?
Faz sentido.
O corpo sabia.
Assaz o estômago dói
quando se ama.
Deve ser por causa
dos receptores opióides
do intestino.


Alfentanil.
Bruprenorfina.
Fentanil.
Codeína.
Fecha os olhos,
amigo - sorri.
Heroína. Metadona.
Morfina. Nalbufina.
Trabalhadores de todo o mundo!...
Ouvi!...
Não deixem de colher as papoilas!...
Eia!... Juntem as sementes -
que a dor agora vai voar!...
Ah!.. Bela dor!... 
Adeus.
Oxicodona.
Petidina.
Ra-mi-fen-ta-nil.
Sufentanil.
Esqueçam a morte.
Esqueçam, esqueçam.
Di-hi-dro-co-de-í-na.
Tramadol.
Esqueçam o crime. A culpa.
O desejo. O pequeno-almoço.
As vítimas do holocausto. 
O absurdo.
Soltem de vez as amarras!...
Apaguem de um só golpe
todas as lâmpadas!...
Com a máxima leveza
e a insuperável elegância
de uma espadeirada bem cruel
- e das mais fortes -
abulam os raciocínios, a lógica,
a necessidade e as consequências.
Ah!... Que delícia!...
Quando nasci deve ter sido assim.
Assim fluído.  Assim suspenso.
Assim livre. Assim veloz.
Só um raio de luz de chama infinita -
estrela cósmica cadente
de cauda divina indefinida
e quente quente quente... Ah!...
Querem mais do que isto?...
Escrevam - Um raio de luz
talvez seja um animal. 
Eia!... Eia!...
Juntem sementes em sacos.
Juntem-nas em cilos que cheguem aos céus
com uma escada em caracol à volta
e que nós subamos por ela,
aos tombos - com flores na testa,
pés descalços
e pássaros nas palmas das mãos
e perguntemos a Deus,
como Deus perguntou a Caim: 
O que é isto?...
O que fizeste?...
Mas primeiro dizemos boa tarde.
Não somos indelicados.
Ah!... Ó leões nascidos na jaula!...
Sermos... e não sermos mais.
Só porque prefere, 
em vez dos frutos da terra, 
o sangue dos animais,
Deus é agora o novo Caim.
Lá no topo da bela escada
que sobe aos céus em caracol
nós hoje os privilegiados
podemos sorrir embevecidos
para Deus. Mas ai
que nos voam das mãos
os pássaros, as borboletas,
os cigarros e os os papillons 
que trazíamos ao pescoço
e já agora nos pulsos
(só para enfeitar).
Dançamos uma valsa?...
Não temos nada a reclamar.
Deus é belo - e a vida também.
Que é isto que vejo?
Um monóculo?!
Ah... é meu... 
Desculpe. Deixei cair.
Quem disse que Deus
alguma vez usou monóculo?
Assim é que era!...
Que luzinhas tão simpáticas.
Eia!... Eia!...
Já não se erguem muralhas
por dentro da carne.
Já não há nós nem amarras
nem entre os ossos -
existem tendões.
Ó corpo sem cordas nem traves!...
Nem figura. Nem sepultura.
Nem peso nem divisões
entre a terra e os pés
ou entre as pernas
e a cintura de um chapéu
que esteja enfeitado
com uma pena de falcão,
uma fita - e uma sineta.
Por dentro da carne - nenhum órgão.
Ó alma sem andaimes nenhuns!...
Fzzzz!....
Nem respirar. Nem caminhar.
Nem rumo. Nem coração.
É só onda
- a curva suspensa -
sem princípio nem fim.
Sombra, rasto
- poeira ou espuma -
que é como a cauda
de uma estrela infinita.
 Arde, arde, arde!...
Meu Deus... - como ardes!...
Já não somos
os escravos cardíacos das estrelas.
Baloiçamos do nosso coração
como um leve corpo descendente
que penda de um pára-quedas ao sol.
Não olhamos para baixo.
Não ficamos com vertigens.
Mas só com receita médica.
Nos países civilizados é assim.
Os opiáceos não circulam livremente,
ainda que os ingleses, esses rafeiros,
os trocassem no século XIX
por porcelanas, sedas e chá,
e por esse comércio se bateram
contra os chineses, ganhando
a ilha de Hong-Kong 
por cento e cinquenta e cinco anos.
Ai!... Feliz de ti
se te arrancam um dente
e colocam um implante
- estás como quem levou um soco na cara -
e como não leste a bula, andas tão contente,
nem sabes porquê, mas sentes 
que é melhor tomar mais um
daqueles comprimidos.
Sempre há o picante, o sono,
o álcool, o clorofórmio,
o sexo, as fantasias,
e talvez o adultério.
Montem a galope nas nuvens,
vá, não tenham vergonha!...
Eia!...
Cerimónias para quê?...
Em cima das nuvens pode-se fazer
nudismo e pairar à vontade,
tal como os anjos no tecto
da Capela Sistina em Roma.
Só há uma coisa
que é mesmo importante
que é não esquecer a bolsinha
com o leite de côco.
Porque aos que trepam ligeiros
pelas costas dos deuses
sempre é útil o gin, 
o vodka, o absinto,
as benzodiazepinas, 
o propofol - e o bronzeador.
Toca a trabalhar, portanto.
Já que a realidade não transige,
desligam-se uns neurotransmissores
do flébil sistema neuronal.
Sempre soubemos fazer isso.
Ah!.. mas quem diria -
que afinal haveria
receptores opióides
nos sistemas neuronais
do intestino?
Faz sentido.
O corpo sabia.
Assaz o estômago dói
quando se ama.
Deve ser por causa
dos receptores opióides
do intestino.










Afeganistão




Por todo este planeta, todos os dias, a todas as horas do dia, meu querido Extraterrestre, são praticados roubos, extorsões, violações, actos de tortura, de rapto e homicídio que ficam sem condenação, sem verdade, sem justiça, sem reparação - totalmente impunes.

São aos milhões, são incontáveis - estes actos. Os humanos tornam-se iguais a vespas que se chacinam umas às outras; iguais a montanhas que desabam num tremor de terra sufocando povos e animais, indistintamente; iguais às forças cegas que lançam um tsunami sobre uma cidade populosa, arrasando tudo.

Detenha-se por uns momentos no Afeganistão, meu querido Extraterrestre.

O Afeganistão é um grande país entre altas montanhas, sem mar, num enclave estratégico entre a China, o Paquistão, o Irão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e o Turcomenistão, e que em tempos foi atravessado pela Rota da Seda. Rico em reservas minerais ainda por explorar, em petróleo, em gás natural, em pedras preciosas, em lítio, ouro, carvão, cobre, crómio e outros minérios raros, o Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo, devido a mais de quatro décadas de guerra. Em 2007, o Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que os depósitos minerais por explorar no Afeganistão valem entre 900 bilhões a 3 trilhões de dólares, e houve até quem declarasse que o Afeganistão poderia ser a Arábia Saudita do lítio. Mas um terço da população afegã está deslocada devido aos conflitos armados e a maior parte vive com menos de um dólar por dia. O Afeganistão também é rico em água, em neve, em rios e em lagos, mas o país sofre dolorosamente com secas sucessivas, uma vez que não tem sistemas de irrigação, nem canalização, nem saneamento. A esperança de vida de um homem nascido neste país não ultrapassa os quarenta anos - e apenas vinte por cento das mulheres e metade dos homens tem acesso à instrução. Desde a intervenção dos Estados Unidos iniciada em 2001, a produção de ópio tem vindo a aumentar e o Afeganistão transformou-se no maior produtor de ópio do mundo, à frente da Birmânia, em 2007. Esta produção equivale a 64 bilhões de dólares, mas apenas um quarto deste valor reverte para os agricultores e suas famílias, cerca de duzentas mil. Calcula-se que mais de um milhão e quinhentas mil pessoas dependam desta produção. O resto reverte para os oficiais de distrito, os rebeldes das milícias e grupos armados, os senhores da guerra e os traficantes de droga.

Dilacerado desde 1978 pela guerra civil que eclodiu com a revolução marxista e que os Estados Unidos e a Arábia Saudita, através do Paquistão, por um lado, e a União Soviética, por outro lado, subsidiaram, o Afeganistão tem sido varrido ao longo de décadas por uma violência que já produziu milhões de mortos e de refugiados. Desde aí o caos tem vindo sempre a instalar-se, com a emergência de sucessivos grupos armados, entre os quais se destacaram os Taliban, um grupo que se originou a partir da «Assembleia de Cléricos Islâmicos», o quinto maior partido paquistanês e que era responsável pela coordenação e direcção das escolas destinadas aos refugiados afegãos, no Paquistão. Em 1994, e muito antes da eclosão do ISIS, foram os Taliban quem impôs um dos mais ferozes regimes de violência, medo e opressão às mulheres, meninas e raparigas, através da implementação da Sharia ou lei islâmica nas zonas dominadas, e Osama Bin Laden e o movimento Al-Qaeda, responsáveis pelo ataque terrorista às torres gémeas em 2011, foram também longamente protegidos e apoiados por este grupo, no interior do Afeganistão.

Apesar de todos os esforços dos Estados Unidos e das Nações Unidas para derrubar os Taliban e apoiar o desenvolvimento do Afeganistão, os primeiros meses de 2015 foram os mais violentos de qualquer outro período registado. A UNAMA (Missão de Assistência ao Afeganistão das Nações Unidas) registou quase 1600 mortos e mais de 3000 feridos só no primeiro mês de 2015, apenas entre civis. E a violência contra as mulheres, as ameaças, intimidação e ataques de defensores de direitos humanos e activistas têm continuado a perpetrar-se num clima de total impunidade, com o governo sem conseguir investigar os casos que são denunciados, nem trazer os suspeitos a julgamento. Atacados com bombas e granadas, quer por elementos governamentais, quer por grupos armados não governamentais, acossados, ameaçados ou simplesmente assassinados, os defensores dos direitos humanos e em particular as mulheres que participam na vida pública, estão em grande risco no Afeganistão. Foi o caso da Senadora Rohgul Khairzad, que ficou gravemente ferida quando o seu carro foi incendiado e que viu morrer dois filhos de sete anos, enquanto a terceira filha, de onze, ficou paralisada.

Meu querido Extraterrestre, parece que os países nos repetem, em transes hirtos, petrificados, manchados de horror e de sangue e na trama do seu imenso calvário, tremendo, inenarrável, que se apaga no choro e nos gritos silenciados das mães, a história dos homens, essa mesma história que se conta igual a si mesma desde tempos imemoriais. Porque pouco significam os bens materiais para a felicidade dos povos, quando as virtudes da justiça, da equidade, da magnanimidade, da temperança, da verdade e da paz os não acompanham.

Alguns de nós, os que conseguem crer num Deus já estabelecido ou fazer nascer uma nova fé num credo ainda por inventar, esses conseguem segurar-se nos pés e andar de olhos abertos sobre a Terra, por um milagre, por uma coincidência mágica e luminosa ou por uma improbabilidade do equilíbrio, que os deixa de pé, no meio da violência do movimento das galáxias, das estrelas que nascem e morrem e que se devoram umas às outras, mas aos outros, os sem fé e a quem os factos torpedeiam como rajadas de bolas em fogo, a toda a hora, esses lutam por aterrar neste planeta como um alienígena para quem a atmosfera terrestre seja o equivalente ao enxofre.

Não chegam sequer a ser exilados, desterrados. 

Logo à partida, tudo lhes é estrangeiro.






Nós os humanos 2...



Meu querido Extraterrestre,

Entre nós os humanos é Karl Marx quem pergunta, em 1867, o que é um dia de trabalho.

E o que é um dia de trabalho, meu querido Extraterrestre?

Será que a si lhe sobra, depois de cumpridas todas as suas obrigações, depois de se lavar, depois de comer, depois de dormir todas aquelas horas que são essenciais para se pôr outra vez em andamento, será que a si lhe sobra, como reclamou Marx, tempo para a instrução, para pensar, para apanhar sol e para passear ao ar livre, para realizar funções sociais, familiares, comunitárias, altruístas ou de amizade, tempo para o livre jogo das forças físicas e intelectuais?

Que não se esgotem as suas forças, meu querido Extraterrestre!

Que as suas forças lhe permitam voar até nós, que estamos reféns de um sistema que nos devora, ou que se auto-devora!

Não andará você a roubar horas ao sono ou a viver como um eremita, só para conseguir trabalhar e cumprir fragmentos, ou melhor, pedaços, de um sonho?

Será que a si também lhe é fornecido alimento como quem fornece carvão a um forno ou óleo e lubrificante a uma máquina?

Talvez vocês tenham dias de quarenta horas, no vosso sistema solar, e horas de sono reduzidas a pouco, como os presidentes da república, quem sabe?

Talvez vocês não tenham, nem um sistema neurológico, nem um sistema digestivo!

Talvez vocês não precisem nem de se lavar nem de comer, e sejam mais como fogos-fátuos!

Vocês sim é que hão-de ser os trabalhadores perfeitos, quando chegarem ao nosso planeta!

Quem sabe?

O capital enamorar-se-à de tal modo pelas novas forças de trabalho extraterrestres que conduzirá os humanos em hordas para os fornos de um novo Auchwitz ou então simplesmente taxá-los-á com impostos tremendos, asfixiantes, devoradores e insustentáveis, impostos para os humanos porque trabalham, porque circulam, porque bebem água, porque acendem a luz, porque compram gasolina, porque comem uma pastilha elástica ou simplesmente porque existem (não se admire, porque muito em breve será criado um novo imposto sobre a existência tanto singular, como colectiva, e que virá a ser comummente conhecido como IES e IEC), ficando então o capital enamorado pelas novas forças de trabalho extraterrestres e com todos os dentes de ouro dos humanos guardados em cofres e todos os bens desses restos inúteis da espécie consubstanciados em notas de crédito e taxas de juro que depois serão totalmente inúteis para os novos fogos-fátuos que não hão-de precisar de nenhum dos nossos produtos, porque afinal os novos fogos-fátuos não têm, nem sistema neurológico, nem sistema digestivo (mas quanto a isso só se pensará depois, caso haja ainda algum sistema neurológico remanescente, o que não é provável), e então será o ómega, o infinito, o novo Big-Bang, o erzatz ou o apocalipse ultra-cómico de uma tal cobiça voraz pela mais-valia e pelo lucro, o grande entupimento, o grande excedente, o sublime vómito ou a mega caganeira simbólica de tudo o que foi inventado e que se tornou desnecessário e que será apenas uma tremenda corrente de lixo num planeta deserto de gente, mas habitado pelos novos colonos - os gentis e ultra-trabalhadores e trémulos luminescentes recém-chegados fogos-fátuos!

Sim, porque por aqui neste doce planeta, meu querido Extraterrestre, os capitais investidos, ou em dívida, na sua voracidade por trabalho extra, por criar lucro ou por pagar o juro da dívida entretanto contraída em tantos países à beira da bancarrota e onde as novas gerações nascem, como os antigos escravos, com a grilheta nos pés, por aqui no suave planeta Terra os capitais são como enormes monstros antropofágicos que se encarregam de devorar os homens, sugando as forças de trabalho nem que seja à custa da duração da vida do trabalhador, e, estando ele com o pensamento entorpecido, seja pelo cansaço, seja pela fome, pelo açúcar ou pelo excesso de informação, alucinam de tal forma a sua humana tendência para desejar que depois a única coisa que ele consegue fazer mesmo após trabalhar até ao limite das suas forças é consumir agonicamente os produtos que o capital precisa de escoar, ainda que sejam inúteis, ridículos, encarecidos ou em excesso. Daí que hoje em dia se produza, para o mesmo produto, o modelo número um, o modelo número dois, o modelo número três... Por exemplo, um telefone um, um telefone dois, um telefone três... E os novos humanos são como ratos que correm em rodas, com os olhos fixos nestas novas jóias, tal como um burro que carrega o fardo na mira da cenoura que tem à frente do nariz.

Você mesmo poderá ver com os seus olhos ou outro órgão que lhe sirva para tal, quando aterrar no nosso maravilhoso e azul planeta, a enorme cabeça do capital poisada no mundo, de boca aberta e escancancarada, como um enorme vulcão. Mal você chegar à Terra, garanto-lhe, será isto a primeira coisa que verá - uma enorme cabeça - porque o capital é só cabeça, uma cabeça e um cu, em ligação directa, totalmente eficaz!...

A língua que sai da boca aberta, colada ao chão, é a enorme rampa por onde seguem todos os seres humanos em fila, uns atrás dos outros. Uns vão de fato e gravata, bem vestidos, com os canudos da universidade na mão, e outros vão descalços, de mãos vazias e amarradas. Uns vão de barriga cheia e outros vão de estômago vazio; uns vão risonhos e outros em lágrimas; mas todos descem pela mesma garganta.

Aí vão eles!...

E saem todos pelo mesmo ânus, pela mesma enorme cloaca do capital. 

Uns saem de sapatos novos e outros a mastigar. Outros vão ao volante de um Ferrari. Há quem traga apenas mais uma nódoa negra no corpo. Um buraco de bala na testa. Um rasgão na alma. 

No fundo, todos fazem o mesmo caminho, meu querido fogo-fátuo, nem mais, nem menos.

Comidos - e cagados - pelo sublime capital. 


Charles Chaplin, «Tempos Modernos», 1936


Impunidade



Em 14 de Julho de 2008, Omar al-Bashir, nascido em 1944, foi o primeiro presidente a quem foi emitido um mandato internacional de captura pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Apesar das Nações Unidas não classificarem como genocídio o que se passou em Darfur, em 2004, Omar al-Bashir foi acusado pelo Tribunal de Haia de organizar uma campanha de assassínios em massa, violações e pilhagem contra a população civil de Darfur. Em 2004, Colin Powell, Secretário de Estado dos Estados Unidos, tinha descrito como genocídio o ataque armado do governo sudanês contra os civis, mas nenhum outro membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas seguiu o seu exemplo. Omar al-Bashir já foi eleito por maioria absoluta três vezes consecutivas em eleições que são suspeitas de corrupção, e, em 2015, viajou até à África do Sul, que ignorou o mandato de captura internacional e que o deixou partir impunemente, tal como, em 2010, no Quénia.

A guerra em Darfur começou em Fevereiro de 2003 quando os grupos rebeldes que pertenciam ao «Movimento de Libertação Sudanesa» e ao «Movimento para a Justiça e Igualdade» começaram a lutar contra o governo do Sudão, que acusavam de oprimir e descriminar a população não-árabe da região. Lutaram inicialmente contra o exército sudanês e depois contra milícias recrutadas entre africanos arabizados e beduínos e contra o grupo Janjaweed, que o governo afirmou não financiar, contra a evidência dos factos. 

Logo depois da entrada dos Janjaweed no conflito, uma milícia composta por elementos de tribos nómadas arábes do Sudão, que sempre estiveram em conflito com a população sedentária de Darfur na luta pela água e pelas terras, começaram a ser denunciadas as violações de guerra sistemáticas perpetradas pelo grupo, de que foram alvo inclusivamente crianças de dois anos. Esta estratégia de guerra foi indicada como consistente com o objectivo governamental de eliminar a presença de africanos negros e não-arábes de Darfur. O «Washington Post Foreign Service» entrevistou várias vítimas comprovadas destes ataques que reportaram como os termos «abid» (escrava) e «zurga» (negra) foram sistematicamente usados. A Sawelah Suliman terão dito: «Rapariga negra, tu és demasiado escura. És como um cão. Queremos fazer-te um bebé claro.» (1)

O ministro dos assuntos humanitários do Sudão, Ahmed Haroun, e o líder da milícia Janjaweed, Ali Hushayb, foram acusados pelo Tribunal de Haia por cinquenta e um crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Mas o Sudão não reconhece a jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Ahmed Haroun terá dito que não se sente culpado, que a sua consciência está limpa e que está pronto para se defender. (2)

Não se sabe ao todo quantos milhares de pessoas morreram no conflito, ou por violência directa, ou por fome e desidratação, durante as fugas, ou por doença. Ascenderão, com toda a probabilidade, a mais de meio milhão de pessoas. Ainda em Setembro de 2016 é relatado que o governo sudanês terá lançado armas químicas sobre a população civil de Darfur, tendo morto mais de duzentas e cinquenta pessoas, na sua maioria crianças. O conflito tem gerado uma enorme crise de refugiados, com mais de dois milhões de pessoas deslocadas, a maioria em campos esquálidos em Darfur ou no Chade, aos quais as equipas de ajuda humanitária quase não conseguem acesso. O Sudão é um dos maiores países de África e um dos mais ricos em petróleo, urânio e gás natural, ainda que a sua população seja uma das mais pobres do mundo. A China, com amplos interesses e importantes cotas na exploração do petróleo sudanês, nega o tráfico de armas que os observadores identificam e que têm proveniência chinesa.

Que voz podemos encontrar para o testemunho de um tal desastre?

Que voz para o desespero por um mundo de onde Deus desertou?

Quem nos fala hoje de Darfur?

Até a notícia urgente das tragédias do mundo flutua ao sabor das modas e dos caprichos dos grandes!...

Tão culpados como os criminosos, são as testemunhas que baixam os olhos.

Tão torpes como os carrascos, são os que ficam em silêncio e de mãos imóveis.

Que reparação para as crianças violadas e para os inocentes mortos e desmembrados?

Que condenação para o ódio, para as casas em fogo, para os pés em sangue?

A União Africana declarou que 2016 fosse o ano dos Direitos Humanos em África.

Mas todas as palavras por cumprir deveriam arder-nos na garganta e deixar em cinzas a nossa alma inteira, para o resto da eternidade.



Vilas destruídas em Agosto de 2004










(1) http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A16001-2004Jun29.html

(2) http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6404467.stm

Pensei que era um poema




Meu querido Extraterrestre,
pensei que era um poema.
- "Breitbart"
baluarte
da "alt-right" -
mas era só
uma notícia de jornal
sobre um site americano
que também podia ser
colombiano coreano
ucraniano angolano
nigeriano peruano
iraniano australiano
humano ou desumano
afinal um desses tantos
sites e sítios
que destilam
veneno contra feministas
mulheres feias
tristes ou velhas
raparigas
demasiado boas
contra negros
contra índios
contra russos e ateus
e os que levam no cu
segundo eles
transsexuais e mexicanos
muçulmanos mulatos
travestis putas e pobres
revoltados inconformados
activistas e progressistas
esquerdistas comunistas
e fervor por chauvinistas
por racistas
por brancos
por ricos
por católicos
por liberalistas
por machos e por machistas
altruístas
"Breitbart"
baluarte
da "alt-right"
que giro
pensei que era um poema
e que até podia 
continuar
rá-te ráte
bright blight
estandarte
de ruindarte
byte bite 
fight plyght
e que belo fraque
só que este mundo 
e gireza - de facto -
meu querido Extraterrestre,
não combinam.







Nós os humanos 1...




Será que você, meu caro Extraterrestre, um dia colocando os pés na terra (se é que os tem), será capaz de identificar um Humano?

Hoje em dia entre nós os humanos é bastante comum, em todas as áreas, que um grupo isolado se componha de elementos homogéneos, formando, como tão bem analisou esse filósofo visionário, o extraordinário Karl Marx, «um órgão particular de um mecanismo total». (1) Assim, é possível observar que uma família, até mesmo um casal, uma direcção, um grupo de operários, uma associação de estudantes, uma escola, uma linha de montagem, um departamento, uma secção de hospital ou uma secretaria tendem a comportar-se como membros ou órgãos de mecanismos que os transcendem, o que se nota em particular no sintoma de uma degradação das actividades propriamente individuais e criativas (tantas vezes inúteis, gratuitas, ou simplesmente prolongadas), a favor das actividades colectivas e mecânicas, amiúde repetitivas, regulares e irreflectidas, mas eficientes e rápidas.

A tendência para nos compormos assim em peças de máquinas ou órgãos de mecanismos obedece sempre a um princípio de eficácia, como tão bem observou Karl Marx. Foi também ele quem observou que, como membro do trabalhador colectivo (a fábrica, ou o sistema), o trabalhador parcelar se torna tanto mais perfeito quanto mais parcelar e incompleto. Um trabalhador assim não exige tanto esforço de educação, não consome tanto investimento e não tem, consequentemente, tanto valor, segundo este sistema. Como peça de máquina ele é, não só mais eficiente, como mais barato. O que resulta em que, no produto final, que em princípio mantém o mesmo valor, o custo de produção diminuiu na mesma medida em que o lucro aumentou. Isto foi bom para todos, ao que parece. Há cada vez mais abundância e lixo no mundo. Por isso, todos tentamos cooperar o melhor possível num tão maravilhoso sistema, nesta criação benemérita e extraordinária do homem moderno, o capitalismo. Haverá porventura sequer uma organização alternativa, meu caro Extraterrestre? Decerto que vocês também, seres luminosos, gentis e resplandecentes, inventaram um capitalismo que vos permitiu construir as vossas naves espaciais, à custa de algum excedente na produção de outros bens mais elementares, ou não é verdade?

Confesso-lhe, a única coisa que me preocupa neste momento é que, se nós os humanos, enquanto indivíduos - isto é, corpos separados -, com tanta facilidade tomamos parte em corpos maiores e perfeitamente organizados, transformando-nos então, ao contrário de outros seres autónomos e individualizados - em órgãos, membros e mesmo peças mecânicas de máquinas ou de engrenagens, se nós os humanos assim nos compomos, não como seres distintos uns dos outros, mas como células de um mesmo tecido, não se dará porventura o caso de estarem vocês os Extraterrestres a tentar contactar uma central nuclear, uma capital de distrito, uma rede de auto-estradas, um aeroporto ou uma fábrica de telemóveis, como se fossem um de nós?












(1) Marx, O Capital, Vol. I, Cap. XIV «O mecanismo geral da manufactura. As duas formas fundamentais: manufactura heterogénea e manufactura em série», p. 218.